Redução da violência no trânsito depende de mudança de cultura, defendem especialistas

Assunto foi debatido durante o Fórum Trânsito e Transformação, realizado em Curitiba pelo Sesi, Instituto Renault e Ecovia

Caíque Ferreira, da Renault, Davi Terna, da Ecovia, e José Antonio Fares, do Sesi, durante a abertura do Fórum (Foto: Gilson Abreu)

Caminhos para se alcançar uma mobilidade mais segura e reduzir os prejuízos econômicos e sociais causados por acidentes foram discutidos no Fórum Trânsito e Transformação, realizado nesta quarta-feira (25), em Curitiba. O debate, realizado no último dia da Semana Nacional do Trânsito, foi organizado pelo Serviço Social da Indústria (Sesi) no Paraná, em parceria com a concessionária Ecovia Caminho do Mar e o Instituto Renault.

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Para o superintendente do Sesi no Paraná, José Antonio Fares, a realização do fórum deve ser o primeiro passo de uma mobilização maior da sociedade na busca por soluções para o problema da violência no trânsito. “Este tema preocupa o Sesi e as empresas parceiras deste evento. Os danos causados por acidentes de trânsito são desastrosos para o país, de extrema gravidade, com uma série de causas e efeitos que precisam ser debatidos”, afirmou. “Mas precisamos de um movimento efetivo, que não se limite a este evento. Nossa proposta é que daqui surja um documento e um grupo permanente de trabalho, que possa articular ações e fazer a ligação com o poder público e para que a gente não perca mais tempo para tratar desta questão”, acrescentou.

Fares também destacou a participação no evento de alunos do Colégio Sesi Ensino Médio. Nas últimas semanas, turmas das unidades da Vila Hauer e do Portão, em Curitiba, tiveram em sala de aula oficinas temáticas que abordaram a questão do trânsito. Na abertura do fórum, foi exibido um vídeo produzido pelos estudantes sobre o tema. “Isso mostra a capacidade criativa e de ação dos nossos alunos do Colégio Sesi, que tem uma metodologia inovadora capaz de fazer grandes transformações em nossa juventude”, disse o superintendente.

A abertura oficial do fórum teve ainda a participação do diretor-superintendente da Ecovia, Davi Terna, e do diretor de Comunicação da Renault, Caíque Ferreira. Ambos destacaram a preocupação constante que as duas empresas têm com a questão da segurança viária e destacaram algumas ações desenvolvidas por elas nessa área. Entre elas, a criação de uma pista educativa, que está sendo construída pela Ecovia, em parceria com a Renault, em São José dos Pinhais. O local será usado para ações educativas com alunos de escolas do município e outras cidades por onde passam as estradas da concessionária. “Na questão do trânsito, a educação é fundamental, o resto é consequência”, ressaltou Terna.

Ricardo Boechat, Marcelo Belão, Caíque Ferreira, Maria Cristina Hoffmann e Dionísio Banaszweski foram os debatedores do evento (Foto: Gelson Bampi)

Cultura e Comportamento

Ações necessárias para reduzir a violência no trânsito brasileiro foram debatidas na sequência, no painel “Mudança de Cultura e Comportamento”. A primeira palestrante foi Maria Cristina Alcântara Hoffmann, coordenadora-geral de Qualificação do Fator Humano no Trânsito do Denatran – Departamento Nacional de Trânsito.

Ela apresentou uma série de estatísticas alarmantes, que mostram o impacto dos acidentes de trânsito na sociedade brasileira. Por ano, mais de 42 mil pessoas morrem nos mais de 420 mil acidentes de automóveis com vítimas registrados no país – o Brasil é o quinto país do mundo em número de acidentes. A grande maioria das vítimas fatais, cerca de 80%, são homens. Além disso, mais de meio milhão de pessoas ficam feridas anualmente nesses acidentes. Não bastassem os prejuízos sociais, os sinistros de trânsito também geram custos elevados para os cofres públicos. O INSS gasta por ano R$ 8 bilhões em pagamentos de benefícios a pessoas afastadas devido a esses acidentes.

Maria Cristina também apresentou as ações que estão sendo desenvolvidas pelo Denatran, órgão ligado ao Ministério das Cidades, para tentar reduzir o número de acidentes no país. Entre elas, uma série de campanhas publicitárias com o objetivo de conscientizar a população sobre a necessidade de mudanças de comportamento no trânsito. “É possível um trânsito mais seguro se todos nós mudarmos nosso comportamento”, disse. “Precisamos colocar em prática as leis. O Código de Trânsito Brasileiro é muito bom, só precisa ser cumprido tanto pelo poder público quanto porque quem transita nas vias”, acrescentou.

Já Marcelo Belão, gerente de atendimento ao usuário da Ecovia, ministrou a palestra “Segurança na estrutura de estradas e rodovias”, na qual mostrou diferentes desafios que as estruturas das rodovias brasileiras enfrentam e quais os caminhos para uma mobilidade segura. Segundo Belão, as estradas e as rodovias representam um pilar fundamental para o crescimento urbano e econômico e a ocorrência de acidentes é inevitável, porém é possível reduzir danos tomando medidas como a instalação de telas e passarelas, aumento da fiscalização e sinalização e o monitoramento de velocidade.

Em seguida, Caíque Ferreira, diretor de comunicação da Renault, falou sobre segurança veicular na palestra “Direção defensiva, um comportamento mais seguro”. Ferreira apresentou um breve histórico da evolução das pesquisas de segurança no trânsito e abordou três diferentes aspectos da segurança no automóvel: preventiva, que ajuda no foco do motorista para o trânsito; ativa, que evita o acidente; e a passiva, que busca minimizar impactos de um possível acidente.

O psicólogo Dionísio Banaszweski ministrou a palestra “A cultura e comportamento no trânsito e suas consequências”, na qual falou sobre a falta da cultura de prevenção no trânsito do país. Banaszweski afirma que o trânsito é questão de saúde e segurança pública e que o comportamento do condutor brasileiro é irresponsável, o que torna necessário dar início a processos educativos para a construção de uma cultura preventiva.

Boechat defendeu atuação mais enérgica da Justiça na punição de pessoas que cometem delitos de trânsito (Foto: Gelson Bampi)

Impunidade

Fechando o debate, o jornalista Ricardo Boechat, âncora da TV Band e da Rádio Bandnews, refletiu sobre o papel da mídia na mudança da cultura de trânsito. Para Boechat, esse papel cabe mais ao Estado, através da educação, do que propriamente à imprensa. “O papel da mídia na mudança de comportamento é bastante relativo e não deve ter uma relevância absoluta ou que se imponha sobre outras instituições. A mídia disputa, em um ambiente muito competitivo, índices de audiência e de faturamento que limitam sua atuação”, afirmou. “Ela tem uma função importante no sentido de dar visibilidade aos fatos, mas eu não transferiria a educação dos meus seis filhos para a mídia, os jornalistas ou algo assim. O papel de educar está com a escola”, declarou.

Na opinião do jornalista, o principal fator que pode resultar em uma verdadeira mudança no comportamento dos motoristas é a punição exemplar de pessoas que cometem delitos de trânsito. “O criminoso de trânsito no Brasil não apanha, não sofre consequências. A Justiça brasileira, que é capaz de encontrar nas letras miúdas da lei argumentos para não punir, parece incapaz de encontrar na mesma lei e nas mesmas letras miúdas argumentos para punir”, declarou. “Um sujeito que usa o veículo como arma, que ultrapassa em muito o limite de velocidade, que mata, foge da cena e se apresenta depois acompanhado de um boníssimo advogado, continua solto por anos sem punição”, acrescentou.

Boechat citou como “caso emblemático” dessa impunidade o ex-deputado estadual paranaense Luiz Fernando Carli Filho. Em 7 de maio de 2009, ele se envolveu em um acidente que resultou na morte de dois jovens em Curitiba. Até hoje, o ex-parlamentar ainda não foi julgado. Os pais de uma das vítimas do acidente, Christiane e Gilmar Yared, que no ano seguinte fundaram o Instituto Paz no Trânsito, estavam na plateia do Fórum Trânsito e Transformação.